A saga rumo ao mestrado

Foto por Anastasiya Gepp em Pexels.com

Me lembro que no início da minha gravidez, uma brasileira lá de Bangalore que havia tido bebê recentemente, ao ouvir sobre meu sonho de ingressar no mestrado, me soltou a pérola: ” Ih, Juliana…você tá muuuito enganada. Você tá pensando que vai ter tempo pra fazer alguma coisa quando seu bebê nascer? Vai sonhando, vai…”.

Aquelas palavras me marcaram. Sei que a pessoa teve um parto e pós parto traumáticos, mas isto não lhe dá o direito de desejar a ruína na vida de outra pessoa. E, se a maternidade estava sendo um perrengue para ela e a fez acabar com todos os sonhos e projetos, eu sinto muito, pois não era para ser assim. E isso eu determinei desde o início. Também cortei relações com esta pessoa, pois gente assim eu não precis na minha vida. Aliás, desde que me afastei um pouco das mídias sociais, o que mais tenho feito é filtrar amizades. Posso contar nos dedos de uma mão as que sobraram.

Quem me acompanha sabe que não estava nos meus planos ter filhos. Queria ter sim. Ter cinco filhos. Quando eu tinha meus vinte e poucos anos. Mas o tempo passou, a cabeça mudou, as prioridades eram outras e estava curtindo muito minha vida de solteira no Japão, viajando muito e, depois, minha vida de casada na Índia, viajando e trabalhando muito, também. E, quando eu pensava na maternidade, nunca era como um fim, mas como um recomeço. Talvez até como um hiato, mas nunca como um ponto final. Por isso, mesmo depois de ter sido mãe, continuei perseguindo o meu sonho de ingressar no mestrado em uma universidade pública.

No ano que tive o bebê, 2020, eu me inscrevi pela primeira vez na seleção de mestrado. Fora da minha área. Me inscrevi em algo relacionado a comunicação e audiovisual para poder abordar o cinema indiano. Porém, bem na época de terminar o projeto e revisar, eis que minha mãe é hospitalizada e, um mês depois, falece. Só Deus sabe de onde tirei forças para poder terminar de escrever. A revisão, nem fiz direito. Queria apenas entregar e me livrar daquilo. Resultado: reprovada. Não fiquei mal pois sabia que o momento não era propício e também por estar tentando fora da minha área.

Foto por Abby Chung em Pexels.com

Sendo assim, decidi que ia esperar o bebê nascer e, ficaria de olho nas seleções de mestrado que abririam em 2021. Foi o que fiz. Porém, eu ainda tinha na cabeça que eu deveria tentar o único mestrado no país em língua, cultura e literatura japonesa, que é na USP. Porém, esta experiência com a USP e seu departamento de japonês veio a ser a mais amarga de 2021. Como minha linha de pesquisa era em literatura japonesa, eu deveria comprovar que tinha o nível 2 da prova de proficiência em língua japonesa. Na verdade, eu tenho o nível 1. Mas como a prova foi feita há mais de 10 anos, falaram que já tinha passado da validade e eu teria que passar por uma prova de japonês do próprio centro de línguas da USP. Aceitei de boa. A prova de língua era a última das minhas preocupações. Fiz a prova toda online e achei bem tranquila. Lembro que eu só tinha ficado em dúvida em apenas uma questão. A partir daí começou uma série de acontecimentos estranhos que terminaram em uma troca de farpas entre eu e o departamento em questão. O resultado da prova de língua não foi divulgado. Nem por e-mail e nem na página da internet do departamento como é de praxe. O gabarito foi divulgado, mas eu não tinha a prova comigo para conferir, já que foi online. Tampouco tirei print da tela, pois como eu disse, a prova de língua era a última das minhas preocupações. O projeto e arguição sim, era o que eu temia.

Entreguei o projeto na data estipulada e fiquei aguardando eles marcarem a arguição, como mencionado no edital. A data da arguição acabou passando, ninguém entrou em contato e eu mandei um e-mail para averiguar. Foi quando eu recebi a pérola: ” Não, ainda não marcamos as entrevistas, mas eu lamento informar que você não passou na prova de língua. Por isso, para você, não haverá entrevista.”

Minha respiração cessou por alguns segundos. Não conseguia crer no que estava lendo. Meu marido saiu do banheiro e eu me acabei de chorar. Ele também não conseguia acreditar. Mandei um e-mail para minha coordenadora, japonesa, da escola onde trabalho e, ela disse, indignada: –“Poderiam te reprovar no projeto, na entrevista, mas…na prova de língua japonesa, nunca!”. Era o que eu precisava ouvir. Eu também tinha certeza disso. Esperei me acalmar e mandei um e-mail para a ouvidoria da USP, reclamando da falta de clareza da seleção. Me mandaram escrever não sei pra qual departamento. Escrevi, eles entraram em contato com a coordenadora da pós-graduação de japonês e a desculpa dela foi a mais absurda:” No próximo semestre tem de novo e aí você tenta! Se quiser a gente te isenta das taxas”. Respondi dizendo que não estava pedindo isenção de taxa nenhuma e não precisava desta esmola. E que, eu tentaria a seleção em uma universidade que tivesse uma nota mais alta no Capes, ao invés do medíocre 4 que eles estagnaram há anos. Após a troca de farpas, eu apenas encerrei dizendo: ” Vocês ainda vão ouvir falar muito de mim. Aguarde.” Fiquei bastante decepcionada, desiludida. Quando a gente não passa porque não tem capacidade, é aceitável. Mas quando a gente tem um currículo excelente e tudo para ser escolhida e nos passam uma rasteira, eu fico muito indignada. Odeio injustiça. Mas, a verdade seja dita: tem muito professor que quando vê alguém com a capacidade de ser tão bom ou melhor que ele, treme na base e quer ver a pessoa ou candidato bem longe. Professores são seres vaidosos. E, professores universitários, mais ainda.

Foto por Mikhail Nilov em Pexels.com

Mas, após este balde de água fria, eis que abre o concurso para professor de língua japonesa da UFRJ e, mesmo sem muitas esperanças, juntei o restante de forças que me restavam após o stress com a USP e me inscrevi. Prova escrita, prova didática, entrevista….Nem acreditei quando vi que havia ficado em 1o lugar! Era tudo o que eu precisava: estar inserida no mundo acadêmico mais uma vez. E desta vez, como docente, o que contaria muitos pontos no meu currículo Lattes, além de outras vantagens. Infelizmente, o contrato de professor contratado ou substituto, como eles chamam, é apenas de 2 anos e já estou entrando no meu segundo ano. Esta foi uma grande alegria do ano de 2022, mas mais alegrias seguiriam no segundo semestre.

Ainda perseguindo o mestrado, decidi mudar de ares. Apesar de ter estudado e ensinado japonês a vida toda, decidi que era hora de sair um pouco disso. Talvez a amarga experiência com a USP tenha sido, na verdade, para mostrar que eu deveria tentar novos rumos. Aproveitando que meu interesse em Índia hoje é muito maior do que no Japão, decidi prestar para estudos literários visando a possibilidade de abordar a literatura indiana.

E, ao invés de me focar em uma universidade apenas, me inscrevi para 4 seleções de mestrado em três universidades: UFF (Linguística e Estudos Literários), UERJ (Estudos Literários) e UFSC (Estudos da Tradução).

A primeira seleção foi a da UFF, para Linguística e, não passei na 1a fase. Mas, já era esperado, já que a prova tinha um viés bastante de esquerda e eu escrevi contestando o tema abordado. Afinal, pediram para dar a opinião com base nos estudos linguísticos. Eu dei, mas já sabia que as chances eram mínimas.

Ainda assim, continuei na luta. Ainda faltavam três. Elas exigiam um projeto de pesquisa. Apesar de eu ter usado o mesmo projeto para as três, o conteúdo do projeto deveria seguir o pedido em edital e, para isso, tive que fazer diversas modificações para tal.

Após a entrega do projeto, era só aguardar o resultado. Se eu passasse na 1a fase, iria para a arguição. Se não, teria que tentar novamente em 2022 ou desistir para sempre desta ideia, coisa que já me passava pela mente, pois parecia que eu nunca ia conseguir chegar lá. Já estava me consolando, dizendo que eu era mesmo uma tonta e que era melhor voltar para a vidinha no mundo corporativo, pois mesmo detestando, ia me pagar bem.

Porém, após ter dado o meu melhor na preparação para a seleção de mestrado e escrita do projeto, finalmente saiu o resultado: É, eu não precisaria voltar ao mundo corporativo. Poderia continuar sonhando em ser docente em uma universidade pública. O resultado, foi mais do que eu poderia sonhar: para quem almejava passar em uma seleção de mestrado….passei em três!! Lágrimas rolaram. Lágrimas de alegria, de alívio, de gratidão…

Foto por Ketut Subiyanto em Pexels.com

Então, certamente a grande novidade deste ano na área profissional é o meu ingresso no mestrado. E, certamente vou compartilhar com nossos leitores um pouco desta jornada. Se você pretende ingressar em um mestrado em universidade pública ou se conhece alguém que está nesta luta, manda acompanhar nosso blog este ano!

Um ótimo 2022 e bons estudos.

por Banjara

Publicado por Banjara Soul

Este blog é para compartilhar um pouco das estórias e memórias que acumulei ao longo destes 12 anos neste incrível continente chamado Ásia. Hoje, de volta ao Brasil, mas com a Ásia no coração.

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