Bangalore – Ranço instalado

  Quando aceitei a proposta da minha empresa para trabalhar em Bangalore, tanto eu quanto meu marido estávamos achando que finalmente estaríamos em um lugar limpo, calmo e mais organizado que nossa cidade anterior: a caótica Mumbai.  Afinal, Bangalore sempre figurava no top do ranking das melhores cidades para se viver na Índia. Hoje tenho certeza que quem escreveu isso só pode ter pago propina para o concurso ou, no mínimo, deve ser de Bangalore.

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Não se deixe enganar pela magnitude dos prédios. A cidade está longe de ser desenvolvida e ter uma boa infraestrutura.

  A verdade é que depois de quase dois anos morando nesta cidade, eu e meu marido chegamos a conclusão de que nada funciona aqui. Nada mesmo. Imagine você sair de casa e  passar um dia normal, sem aborrecimentos. Parece algo normal, mas, não quando se mora em Bangalore.  Principalmente quando os aborrecimentos vêm de coisas tão primárias. Continue lendo para entender melhor o meu ranço.

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Sentimento diário

  O maior desafio que tivemos até o momento, talvez tenha sido os constantes cortes de energia, mesmo sem motivo aparente para tal, como chuvas ou ventanias. No prédio onde moramos, não há gerador. Só na casa do dono do prédio. E, nem verificamos isto antes de alugar o apartamento, já que ter luz 24 horas por dia, sete dias na semana, era algo normal em Mumbai. Mas, não aqui. A luz vai embora por horas. No escritório, temos o gerador, que ajuda a manter, pelo menos, os computadores funcionando, para que não afete o trabalho.  Pensamos em comprar um gerador e todo o trambolho que vem junto, mas descobrimos que seria apenas uma medida paleativa e que os principais eletrodomésticos e luzes não poderiam ser ligadas. Então, desistimos.

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  O problema da luz é extremamente irritante para nós, que não estamos acostumados com isso. Até no interior do país, onde meus sogros moram, tem mais luz do que aqui. Mas, tudo isso parece não abalar os indianos residentes de Bangalore. Quando reclamo ou comento algo, eles sempre dizem: “É assim mesmo. Sempre foi assim. Não há nada que possamos fazer a respeito.” Justamente por esta passividade, como se tudo na vida fosse um karma, é que nada melhora para eles no país. Nunca. O país lança satélite, constrói estátua inútil gigantesca para o bel prazer do primeiro ministro, mas….luz, banheiros e saneamento básico, não são prioridades. Principalmente quando o povo não parece muito se importar com sua qualidade de vida.

Mas não é assim com quem já pisou fora daqui e já conheceu outros países. Ninguém se conforma. Outra coisa que é extramente irritante e que acontece, sem exageros, diariamente, é ficar estressado com o serviço daqui. Serviço, não, porque é inexistente. Meu marido mesmo diz que não há um dia que passemos em paz nesta cidade. Eletem razão. Todo dia tem que ter um stress. São coisas pequenas sim, mas que acumuladas diariamente, se tornam insuportáveis e você sente vontade de literalmente bater em alguém. Quem me conhece desde o Brasil sabe como eu era calma, mas a Índia, com sua “espiritualidade”,  conseguiu tirar de mim toda a calma e a paciência. Aqui tudo é no grito e na ameaça. Em Bangalore, mais ainda. Você pede um simples café em uma cafeteria e, eles trazem um capuccino. Você pede um sanduíche sem picles e eles trazem…adivinhem? Cheio de picles. Outra coisa que me aconteceu recentemente foi pedir um sanduíche, um café, pagar por isso e, cinco minutos depois, já confortavelmente sentada na poltrona, a atendente vem me avisar que o meu sanduíche não se encontrava disponível. Cacete…..porque não verificou antes que eu pagasse? É algo tão simples e básico, mas ninguém aqui é treinado para nada. Não há um dia em que você passe sem se estressar. 

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  Até na hora que você está indo se divertir, você se estressa. Chama um Uber e, ele não gosta ou não tá a fim de te levar até o local e, simplesmente cancela tua corrida. E, no final, você ainda é cobrado por isso. Ainda no Uber, você entra no carro e o carro, além de imundo, tem um motorista que pelo cheiro e aparência, parece que não toma banho há dias. Uma catinga que é mesmo só para quem estômago bem forte.  Se você abre a janela, leva um banho de poluição. Se fecha, morre asfixiada com o cheiro do motorista. E, para completar o suplício, o motorista nunca tem troco. Ou melhor: eles fingem que não têm. Troco é coisa complicada aqui na Índia e ninguém quer dar o seu. O mesmo acontece com os motoristas de Uber e Ola, que nunca têm troco e, ainda querem que você, o cliente, se vire para trocar. Mas, comigo não tem essa. Ele é que quer o dinheiro. Ele que vá trocar. Que se vire nos trinta, mas eu só saio de dentro do carro quando meu troco aparecer. Se não for assim, você nunca verá o troco na sua vida. 

   Neste momento, escrevo frustrada, porque mais uma vez, eles conseguiram estragar o nosso almoço de domingo. Pedimos uma comida e, o pedido veio errado. Só percebemos quando abrimos a caixa. O motorista já tinha partido. Ligamos para o restaurante, que não tem a cortesia de pedir desculpas ou nada do tipo. Falam que vão ligar pro motorista. Esperamos quase uma hora. Nada de contato. Ligamos de volta e, eles simplesmente falam:  “Mas o motorista já entregou o pedido de vocês. Mesmo errado, não posso fazer nada. ” Uma série de xingamentos em Hindi se segue. Só assim, para liberar o stress que Bangalore causa na gente.  Nunca pensei que fosse passar a detestar a Índia, mas Bangalore está realmente mudando meus conceitos. Mumbai era suja, caótica, louca, frenética, mas ainda assim, éramos felizes e não sabíamos. Em Mumbai, com aquela população gigantesca e a grande competitividade, todo mundo tem que ter uma boa performance. Afinal, o que não falta é gente de olho na sua vaga. Seja ela de faxineiro, motorista ou Ceo.  

  Hoje, mais do que nunca, eu tenho certeza de que a Índia é realmente para os fortes. Me orgulho, de certa forma, de já estar indo pro meu sexto ano no país e ter sobrevivido a este pandemônio. Mas, beirando os quarenta, as coisas já não parecem tão mais emocionantes e exóticas como quando eu tinha vinte e poucos.  E, cheguei a conclusão de que a Índia é um ótimo país para quem quer viajar e ver monumentos históricos. Mas, para morar para sempre, ainda mais quando já se viveu em lugares bem melhores, definitivamente não é a melhor escolha.

  Vejo que muitas moças me procuram através de e-mail ou Facebook para dizer que estão pensando em largar tudo e vir morar aqui. E, a maioria, pensa em ir morar nos cafundós onde Krishna perdeu a flauta, onde moram seus pseudo namorados de internet.  Se morar em Mumbai, Delhi, Bangalore e grandes metrópoles indianas como essa já não é para qualquer um, imagine só no interior do país, onde tudo é precário e retrógrado, a começar pela mentalidade. Ainda mais para uma brasileira, que não fala inglês, como é o perfil da maioria. Vai sofrer. E muito! 

  Eu moro em uma cidade grande, com tudo que uma metrópole tem (exceto eletricidade), tenho um cargo de chefia em uma empresa japonesa, motorista a minha disposição e, mesmo assim, me estresso todo dia. Ou seja: Não importa o quanto de conforto você tenha no país. Vai ter uma hora em que a verdadeira Índia vai bater na sua porta e você vai ter que encará-la. E não será fácil. Não há Bollywood ou yoga que te faça ficar calmo.

   Por isso, pense muito bem antes de largar tudo que você tem aí no Brasil (a maioria acha que Brasil e Índia são iguais, mas estão muito enganados), porque o que você vai encarar aqui não será mole, não. Mas, se ainda assim você quiser dar a cara a tapa….que venha. A Índia é sem dúvidas, um país fascinante, mas aqui, todos os seus limites serão testados. Tenha apenas isso em mente e venha na fé.

por Banjara

 

 

4 comentários sobre “Bangalore – Ranço instalado

  1. Nossa Juliana para você reclamar dessa maneira está chegando seu limite! Tenho uma irmã mais velha que mora em Fukuoka ela está no Japão há dez anos e vejo o quanto ela absorveu a cultura de lá. em alguns momentos me pego pensando em você que viveu em um lugar que funciona vivendo ai na Índia mas hoje você já me respondeu! fica em paz e que Deus te dê mais paciência e eu acho você tranquila pelo que acompanho do seus vídeos no youtube!

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  2. Ótimo artigo! A minha opinião é exatamente a mesma que a sua. Uber, encanador, faxineira, escritórios do governo, nada funciona. Moro em Cochin, cidade grande também, eles têm o maior orgulho em dizer que o nível de alfabeticazacao aqui é de 98%, mas isso não significa ter educação. Não passa um dia sem que alguém te dê um empurrão ou tente passar na sua frente na fila do banheiro do shopping. Não faz diferença se sabem ler ou não, não é isso que importa, não existe educação. Aqui todo dia falta energia, só 2h por dia… que é uma eternidade quando a temperatura beira os 40C lá fora, o ano todo, não existe inverno e o ar condicionado não é item de luxo.
    Te admiro por levar 6 anos até o ranço… eu me lembro de no segundo mês já estar no meu limite, mas continuo firme até que a hora do “De volta pra minha terra” aconteça 😂😂😂

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    1. Pai e mãe têm prazo de validade. Eles morrem e a gente fica como um galho solto no mundo, sem raízes. Enquanto eles estiverem vivos, não tem homem nem emprego no mundo que valha a pena ficar longe deles.

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    2. Oi, Juliana! Minha xara! Acho que ja te vi la no Face em alguma comunidade. Talvez no grupo das brasileiras casadas com indianos. Nao lembro. Nossa…nao sabia que voce morava em Cochin. La tambem eh meio fim de mundo e, so eh bom mesmo ir para fazer turismo, com os dias contados e voltar logo para casa. Pois eh…voce resumiu de forma perfeita o que acontece aqui. Educacao formal nao significa boas maneiras e respeito ao proximo. Tem muita gente no Brasil que mal sabe ler, mas que dah um banho de educacao e boas maneiras. Espero que a sua volta pra terrinha aconteca muito em breve. Um abraco e obrigada por compartilhar sua experiencia.

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