Aborto na Índia – Como funciona?

Olá, pessoal!

Tenho acompanhado as notícias aí do Brasil sobre a PEC 181 e todos os protestos que a mesma tem gerado. E, este assunto caiu como uma luva, já que nos últimos dois meses, atuei como intérprete em 3 casos de aborto aqui na Índia. Um espontâneo e dois induzidos.

No caso do espontâneo, tudo foi muito simples, pois quando a paciente chegou ao hospital, ela já havia praticamente abortado todo o feto.

Porém, no caso dos abortos induzidos, a coisa já fica mais complicada e, gostaria de compartilhar a experiência com nossos leitores. Antes que as pessoas mal interpretem o texto, faço questão de dizer que não estou fazendo apologia do aborto nem condenando-o. Apenas venho, por meio do blog, relatar minha experiência nesta situação que é sempre crucial para qualquer mulher. Mas, antes de contar esta experiência, preciso dizer as nossos leitores que o aborto na Índia é aprovado por lei, apesar de muitas mulheres não saberem.

Caso você também não saiba, o aborto na Índia ou a interrupção gestacional, como é chamado por aqui, é legalizado desde 1971. Há dois tipos de procedimentos para interromper a gestação, sendo um apenas com remédios e o outro, através de uma pequena intervenção cirúrgica.

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Interrupção através de pílulas – Este método só pode ser realizado caso a mulher ainda esteja nas 7 primeiras semanas de gestação. As pílulas abortivas devem e só podem ser receitadas por uma ginecologista, já que a venda das mesmas é proibida no mercado. A primeira pílula tem a função de fazer murchar a placenta e, a segunda, é a que faz com que o sangramento comece. Segundo a ginecologista, 30 minutos após tomar a primeira pílula, a mulher começa a sentir uma cólica muito forte que dura algumas horas do dia, seguida por um forte sangramento. A dor dura apenas algumas horas do dia, mas o sangramento, pode durar de uma a duas semanas. Depois de duas semanas, a mulher deve ir novamente ao ginecologista para fazer um ultrassom para verificar se não há restos fetais presos no útero.  Caso ainda haja resíduo fetal, a médica pode optar por esperar, dar mais um medicamento abortivo ou, fazer o procedimento cirúrgico, o qual chamamos de curetagem uterina, no Brasil. Para receber tais pílulas, a paciente precisa assinar uma carta de consentimento. E, graças a Deus, não precisa da autorização do marido ou de nenhuma outra pessoa para passar pelo procedimento. Tudo é feito no maior sigilo.

Caso a mulher tenha passado das 7 semanas ou a interrupção através de pílulas não tenha sido bem sucedida, ela terá que passar pelo procedimento cirúrgico que é, muito simples na verdade, mas que deixa qualquer um apreensivo. O procedimento cirúrgico é feito com anestesia geral. A pessoa fica desacordada durante os 10 minutos do procedimento, acordando imediatamente ao término do mesmo. A recuperação é bem rápida e no mesmo dia, a mulher pode ir para a casa, na maioria dos casos.

Um dos casos no qual fui intérprete, a paciente decidiu abortar porque já tem duas filhas com um problema hormonal seríssimo e que estão sob tratamento desde o nascimento. Ela estava bastante indecisa e ficou balançada quando a médica sugeriu que ela procurasse um geneticista, que poderia dar em números, a probabilidade de a próxima criança nascer com o mesmo problema das outras filhas. Porém, o marido foi enfático, dizendo: – “Nós já decidimos. Queremos o aborto.” A esposa ainda não estava 100% confiante, como dava pra notar. No entanto, recebeu o kit de pílulas, assinou o papel e foi para casa.

Dois dias depois, eu liguei para ela para saber se estava tudo bem. Ela, então, me disse que não tinha tido coragem de tomar as pílulas.  E me perguntou até quando poderia esperar. Disse a ela que ela tinha mais 5 dias e, que se estivesse em dúvida, eu poderia marcar uma consulta com o geneticista, como fora sugerido pela ginecologista. Ela disse que iria pensar e me ligar mais tarde. Porém, não ligou. Na semana seguinte, encontrei a mesma paciente quando fui fazer o atendimento de um de suas filhas, que estava com febre. Naquele dia, ela me contou que finalmente havia tomado as pílulas e que no momento, estava sangrando sem parar, apesar de já não ter mais dor.

Já havia passado uma semana desde o aborto. Na consulta seguinte, ela fez mais um ultrasom que mostrou que ainda havia resíduos fetais no útero. Alem disso, ela estava desenvolvendo uma infecção. A doutora passou mais uma pílula abortiva e antibiótico. Disse para que ela voltasse na semana seguinte. Ela voltou para mais um ultrasom, o qual comprovou que ainda havia resíduos fetais no útero. Deram mais uma pílula abortiva para ela. Porém, como já havia tomado várias pílulas abortivas em menos de 1 mês + antiobióticos, nossa paciente ficou com medo de tomar mais um vez e, me ligou.

Foi aí que sugeri que ela fosse procurar uma outra ginecologista que conheço, muito boa, no Columbia Asia Hospital. Marcamos a consulta pro dia seguinte. Chegando lá, a doutora a examinou internamente e, me chamou para ver o que estava acontecendo atrás da cortininha. A paciente ainda sangrava muito e, pela cor do sangue, era nítida a infecção. Alem disso, ela já estava tendo febre alta há dois dias. Na mesma hora, a médica disse para que ela fosse internada para uma curetagem e para tratar a infecção antes que aquilo se desenvolvesse em uma infecção ainda mais séria.

O marido da paciente, estava de viagem marcada para Delhi e, ao saber da notícia, me ligou perguntando se não dava para evitar a internação, já que eles não tinham com quem deixar as duas crianças. Me pediu para tentar convencer a médica. Minha vontade era mandar o tal marido à merda. Como se ele não tivesse culpa nenhum no ocorrido, né? Deu para perceber como ele era insensível ao problema, como se o aborto fosse um arroto. Senti pena da paciente e das filhas dela.

Sendo assim, fiquei com ela até de noite, ajudando-a a cuidar das crianças no hospital e, no dia seguinte, dia da curetagem, eu cheguei cedo no hospital para que as crianças não ficassem sozinhas enquanto a mãe passava pela cirurgia.

Graças a Deus, deu tudo certo e algumas horas após a curetagem, no final do dia, a paciente recebeu alta. Na consulta seguinte, o ultrassom mostrou que o útero estava limpo e, aquele pequeno pesadelo tinha passado. Ela me agradeceu muito com os olhos cheios de lágrimas e, quase que eu chorei também, porque passei por todo o sofrimento junto com ela e vi o quanto o marido dela é insensível.

Semana passada, mais uma paciente japonesa me ligou querendo fazer um aborto e, o mesmo jamais deveria cair nos ouvidos do marido. Diferente da outra, esta paciente estava 100% decidida. A médica perguntou se ela não gostaria de pensar mais um pouco. Porém, ela foi enfática: “-Não. Eu quero abortar”.

Sendo assim, a médica não tinha nenhuma outra opção a não ser dar o remédio para a moça. A primeira pílula, ela já tomou ali mesmo na clínica e, o resto, iria tomar em casa. Desde então, ela não me procurou. Então, creio que esteja tudo bem com ela. Agora nos encontramos semana que vem, na pŕoxima consulta.

Estas experiências são únicas e mexem com qualquer um. Mas, fica aqui o relato, de três experiências de abortos na Ìndia. E, as quais, podem servir de ajuda para brasileiras aqui no país, que venham a passar pelo mesmo problema.

Para maiores informações sobre o assunto, consulte:

https://en.wikipedia.org/wiki/Abortion_in_India

Um abraço e até a próxima.

por Banjara

 

 

 

Ela

 

 

 

 

 

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4 comentários

  1. Muito interessante! Eu não sabia que o aborto é legalizado na Índia. Como você falou, independente de ser contra ou a favor, fico feliz de saber que pelo menos esse direito a mulher tem por aqui, e sem ter que pedir a permissão de ninguém.

    Curtido por 1 pessoa

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