Um trem e muitas estórias

Olá, pessoal!

 

Como prometido, vou contar a vocês como foi minha viagem de trem de Mumbai a Bangalore. Bem…primeiro, vocês devem estar se perguntando se minha empresa é tão muquirana que nem pode pagar um vôo para mim, não é?

Não…não é bem assim. Eu estava mesmo planejando vir de avião, até que Deus enviou um anjinho de quatro patas na minha vida e, em uma semana….tudo mudou!!! Como a Índia infelizmente ainda não é um país pet friendly (apesar de muitos bichos serem considerados deuses), a maioria das companhias aéreas tinha problemas com bichos de estimação. As que permitiam, cobravam uma taxa alta e, ainda assim, o bichano ia no bagageiro, onde a temperatura só Deus sabe como é e, que pode, claro, matar o seu bichinho de estimação. Como a Sakura (este é o nome dela) tem pouco mais de 1 mês e ainda está fraca, eu não queria correr o risco. A Air India, parecia ser a companhia aérea mais amigável aos bichanos, mas para levar o bichinho na cabine, mesmo dentro da gaiola, precisava da aprovação final do capitão. E, a qual você só recebe minutos antes de embarcar. Tudo depende da boa vontade dele. Como não quis correr este risco também, a melhor opção foi a viagem de trem.

Viajando de trem com animais

Se viajar de trem de Mumbai a Bangalore já é complicado por ser uma viagem longa (24 horas), com um animal de estimação, tudo torna-se mais difícil. Se você tem bichinhos de estimação e pretende viajar com eles, leia com atenção este post. A Indian Railways não tem problemas com animais, mas para poder viajar com eles, você deve comprar um assento na 1st class AC (Primeira-classe eito com ar condicionado). O problema é que a 1st class AC não é uma cabine exclusiva para você e seu amiguinho. São 4 camas: duas embaixo e, duas em cima. Portanto, outras pessoas vão dividir o compartimento com vocês. E, como os trens estão sempre lotados, dificilmente você terá a sorte de ter uma cabine só com duas pessoas, pelo menos.

Assim que cheguei na minha cabine, levei um susto porque uma família inteira já a ocupava e quando a mãe das crianças me viu com a gaiola, ela fez uma cara de pavor e me perguntou o que tinha dentro. Quando eu disse que era um gato….meu Deus! Vocês precisavam ter visto a cena!!! Ela simplesmente saiu correndo da cabine, esperneando e gritando. Todo mundo ficou sem saber o que fazer. Meu esposo, que é veterinário, achou aquele chilique todo desnecessário.

O esposo da mulher, então, veio pedir desculpas e disse que eles tinham um assento reservado na cabine ao lado e, que eu poderia usá-lo. Aí, fui obrigada a mudar para a cabine do lado. Ainda indignada com o show dado pela mulher (eu entendo que muita gente tem medo de bicho, mas…po…precisa criar toda aquele estardalhaço??) Eu odeio rato e barata e, nem quando vejo estes bichos perto de mim, eu faço uma cena daquelas. Enfim…minha raiva logo passou quando chegou um rapaz novinho com um labrador enoooorme. O cãozinho era tão fofo, com aqueles olhos de  me dá mais carinho e, pronto! Ficou na mesma cabine que eu.

Segundo o rapaz, a mulher da cabine ao lado também deu chilique quando viu o cachorro!). Ficamos apreensivos, esperando a reação dos outros dois passageiros que estavam por vir. Logo, chega um senhor muito bacana, e pareceu super confortável com a presença de dois bichos dentro da cabine. Faltava mais um passageiro. Finalmente, ele chegou e, parecia até feliz com a presença dos bichos. Até se ofereceu para segurar minha gatinha caso eu quisesse ir ao banheiro. Me contou que foi sempre criado com animais e gostava muito deles.

Porém, como alegria de pobre dura pouco….o oficial da Indian Railways arrumou uma outra cabine para o rapaz do labrador e seu cão. Eu, continuei na mesma cabine, já que a mulher histérica ainda ocupava o MEU lugar. Os dois passageiros gente boa desceram em Pune e, aí, começou outro drama. Uma família entrou e queria que eu cedesse o lugar para a mãe deles. Eu disse que meu lugar estava ocupado e não poderia ceder. Eles não gostaram. Um cara que estava na cabine, muito mal humorado, chamou o oficial e reclamou. Eu também reclamei e disse que queria meu lugar de volta. O oficial foi de novo conversar com a família da histérica. Eles se recusaram a sair de lá e, o oficial pediu para eu aguentar até Solapur (mais 4 horas de viagem) e, que lá, eles iriam descer e eu voltaria para a minha cabine. Aff….ouvi os passageiros daquela cabine reclamando de vírus e coisas que os animais podiam transmitir. Decidir fingir que não estava entendendo, já que eu tenho certeza que os animais são mais limpos que eles, que escarram no chão, jogam lixo por aí sem piedade, andam descalços nos templos ondem pisam vários animais, etc. Mas apenas virei e disse: – Ela tem todas as vacinas, está vermifugada e tem um certificado de autorização de viagem atestado por um veterinário!!

Como perceberam que eu estava entendendo tudo, eles preferiram calar-se e continuar a viagem em paz.

Finalmente, chegou Solapur e eu pude me mudar para minha cabine. Por umas duas horas, a cabine ficou só para mim e Sakura. Mas, logo depois chegou uma família inteira de indianos e a velha queria que eu sentasse na parte de cima, porque ela queria usar a cama de baixo. Ela nem era tão velha assim. Então, como já estava p…, não tive pena e disse:

– Não. Este é meu assento. Não vou ceder. 

Aí, ela começou a ligar para uma parente que estava no trem e começou a fazer os preparativos para elas trocarem de lugar. Nisto, já estávamos no estado de Karnataka. Finalmente, chega a filha dela com uma bolsa cheeeeia de marmitas com chapati, daal, vegetais, etc. Um verdadeiro piquenique, super comum nos trens indianos. Sendo assim, a filha dela, uma adolescente muito fofa, começou a puxar conversa comigo em inglês. Perguntou se onde eu era e, aí, pronto! A família inteira se interessou na minha estória e em como resgatei a gatinha das ruas.

Nisso, só vejo um prato na minha frente com chapati, daal e vegetais cozidos. Era a mãe da adolescente, me servindo comida. Apesar de apimentada, a comida era boa. E, neste clima de confraternização, os problemas acabaram. Mas, não todos.

O pai dela estava no mesmo compartimento que eu. Um senhor já de idade, com cadeira de rodas e tomando injeções de insulina. Até aí, tudo beleza. Só não foi beleza acordar e sentir um cheiro terrível de urina. Achei que fosse Sakura que tivesse feito xixi no cobertor e fiquei desesperada. Tentando achar o menor vestígio de xixi de gato, eis que meu pé esbarra em uma bolsa. E a bolsa estava cheia com um líquido. Foi aí que percebi que a bolsa estava conectada à uretra do senhor e que toda a urina ia para aquele saco. Só que havia um problema: o saco estava cheio de xixi e já começara a vazar. Corri para avisar aos familiares que o saco estava vazando. Eles, entao, chamaram o rapaz que trabalha para eles, uma espécie de empregado+ enfermeiro. O rapaz jogou parte da urina fora, mas o xixi do tal senhor já tinha vazado pela cabine e, molhado minha mochila. O cheiro da mochila, claro, ficou insuportável. Mas, não tinha como eu dizer nada, nem reclamar. Primeiro, porque é um caso de doença e, segundo porque minha mãe também sofre de incontinência urinária e eu sei bem como isso é ruim, apesar de ela não usar sonda.

O negócio foi chegar no hotel e colocar a mochila (e tudo mais que havia dentro dela e cheirava a mijo) em um balde de molho. Espero que o cheiro saia logo.

Realmente, foi uma viagem inesquecível!!! Hahahaa..

Só rindo para não chorar!

Um abraço e até a próxima!

por Banjara

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12 comentários

  1. Então…viajei com sua estória, visualizando através do seu relato cada cena.
    Sei que não foi fácil tudo que vc passou, mas adorei ler cada linha.
    Bjs Juh…
    Deus abençoe sua nova etapa.

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  2. Oi Ju!
    Conheci o seu blog essa semana,já li vários pots e estou amando.Sempre tive muita vontade de conhecer a Índia e muita curiosidade sobre os costumes e etc…
    Pelo o que eu li o seu marido é Indiano.
    Gostaria de saber como foi o início do relacionamento de vocês, já que ele é de uma cultura totalmente diferente da nossa.
    Provavelmente você já deve ter falado sobre isso aqui, então gostaria que você deixasse o link para que eu possa vê.
    Desde já Parabéns pelo blog
    Estou feliz que vou poder acompanhar a sua nova mudança desde o começo kkkkk

    Curtido por 1 pessoa

    • Oi, Ana! Nao…meu marido nao veio porque ele tinha que trabalhar naquele fim de semana. Mas, neste sabado ele chega e fica por alguns dias. Vamos ficar neste relacionamento a distancia ate ele se mudar definitivamente para ca, no meio do ano.

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