Contos da Índia – O dia em que ela sorriu

No primeiro dia que nos conhecemos, ela não sorriu. Quando me mostrou suas fotos de casamento, reparei que não estava a sorrir nas fotos. Aquilo, de fato, intrigava a alguém como eu, pessoa de riso fácil e que não consegue sair em uma foto sem esboçar um sorriso, por menor que seja.

Porém, Bhabi não era assim. Mulher bela, mas de poucos sorrisos. E, quando eles aconteciam, eram sempre contidos. Vê-la sorrindo, realmente era privilégio de poucos, mas certamente, um momento tão aguardado, como a entrada de uma noiva.

Entretanto, eu tive o privilégio de vẽ-la sorrindo algumas vezes. Como ontem, por exemplo.

Bhabi era a típica esposa indiana. Nascida e criada no interior de Uttar Pradesh, ela fora à escola, fez faculdade, mas jamais trabalhara fora. Casou-se com meu cunhado há 6 anos e como esperado, logo deu a luz ao primogênito. Seu dia começa e termina com os afazeres domésticos. como é esperado de uma boa e tradicional esposa na sociedade a qual Bhabi pertence. Sua rotina é praticamente a mesma os 365 dias do ano.

village

Foram raras as vezes que Bhabi viajou ou saiu sozinha. Aliás, nunca a vi sair sozinha. Quando saía, era sempre acompanhada de Mummy, como chamamos nossa sogra. Em 6 anos de casamento, ela só havia ido à uns dois lugares diferentes e, mesmo assim, com marido e primos. Vi as poucas fotos tiradas nestes passeios. Lá, ela também não estava sorrindo, apesar de o nome de um dos locais ser, ironicamente….The Fun Park.

Mas, naquele dia fora diferente. Aquele dia de nossa pequena viagem à Rishikesh. Rishikesh realmente tem algo mágico no ar. Ao atravessarmos a Laxman Jhula, a famosa ponte suspensa da cidade, eu, extasiada com a beleza das águas cristalinas do Ganga, começava a clicar as primeiras fotos. Foi então, quando ouvi uma voz suave, chamando o meu nome:

“Juli…Juli…”

Olhei para trás e era ela, Bhabi.

– “Tira uma foto minha?”– pediu ela, com o sorriso como de uma criança que vai ao parque pela primeira vez.

Pude ver em seus olhos a alegria de sair um pouco de sua cansativa rotina, de ver um lugar diferente, de comer fora….coisas tão comuns para eu e para você, mas tão raras para minha Bhabi.

Para mim, mais do que ver e me banhar nas águas geladas e cristalinas do Ganges, que descem do Himalaia, o sorriso inusitado e sincero de Bhabi foi a melhor surpresa daquele dia.

Esta foto será impressa e enviada a ela, a minha Bhabi, que me inspirou a escrever este post.

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Bhabi com sua bebê e o sorriso mais belo que já nos mostrara.

por Banjara

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10 comentários sobre “Contos da Índia – O dia em que ela sorriu

    1. Ola, Norma! Elas nao se rendem a monotonia e a rotina, mas este o papel esperado de uma mulher indiana, ainda mais em vilarejos do interior. A rotina eh sempre a mesma. Acho que no Brasil mesmo, há muitos lugares assim, bem no interior, roça mesmo, onde cada um tem seu papel bem definid e não há muito mais o que esperar da vida. No ponto de vista do marido indiano, a maioria acha que suprindo as necessidades dela e das crianças, como alimentação, moradia e escola, já está de bom tamanho. Sua pergunta é muito interessante. Me permita publicá-la no me blog para que eu responda melhor e também para que os demais leitores possam aprender e participar.Um abraço!

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    2. Talvez um casamento apenas a dois seja ainda mais monótono e rotineiro. A princípio, talvez utopicamente, eu sou a favor da tradicional grande família, morando em um terreno dividido em várias casas, conforme os filhos vão se casando, com avós, tios, primos sempre presentes na infância e velhice de todos.

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  1. Pois é, nem eu reconheci tua cunhada naquela foto dentro do carro pois nunca a tinha visto sem estar com aquela cara amarrada de sempre! Essa foto dela sorrindo na ponte então… pega o guarda chuva que é sinal de que vai chover! Mas num é que sorrindo ela fica bonita? Agora só falta ver uma foto do marido dela sorrindo!

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  2. Você colocou lágrimas nos meus olhos. A Bhabi e a bebê são lindas.

    Faz um post sobre prazer sexual das mulheres indianas? A minha impressão é de que, além de serem pouco dotados (o que não chega a ser muito importante), os homens indianos não sabem e não dão a mínima por isso, sendo eles mesmos muito insatisfeitos antes e depois do casamento.

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    1. Fico feliz que tenha gostado do texto. Eu tambem fiquei com lagrimas nos olhos quando vi o sorriso dela na foto. Em relacao ao prazer sexual das indianas, fica dificil dizer, porque nunca tive esta conversa com nenhuma delas. Mas, posso abordar o assunto em um post futuro. Um abraco!

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      1. Eu estava me referindo ao teu texto, poesia pura. Sensibilidade. Isso que me deixou com lágrimas nos olhos. As meninas (Bhabi e bebê) me fizeram sorrir.

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