Contos da Índia – A decisão infeliz

Olá, pessoal! Como não canso de dizer….a Índia sempre me surpreende, me revolta, me faz amá-la e odiá-la várias vezes ao ano. Quem mora aqui e tem contato direto com os indianos sabe muito bem do que estou falando. O Contos da Índia de hoje, vai falar da estória de mais uma indiana. Uma indiana jovem, de 23 anos, que quer sair da bolha, mas é puxada pela tradição.

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Ontem, chego no escritório e recebo a notícia de que uma de nossas intérpretes do escritório de Ahmedabad (Gujarat) decidiu sair da empresa. Fiquei chocada, ainda mais porque ela foi a última a entrar, há cerca de 2, 3 meses. Pensei logo que fosse pelo fato de estar vivendo em outra cidade (ela é de Mumbai) , longe da família, já que isso não é bem visto ainda em muitos lugares e famílias da Índia. E, é difícil também pelo lado psicológico, já que os indianos gostam muito de estar aglomerados e com gente à sua volta.

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Mas, não era bem esse o motivo. Ontem, conversando com a supervisora japonesa do nosso escritório, ela me disse que havia falado por horas e horas com a tal jovem, tentando convencê-la a não sair da empresa. Justamente agora, que ela estava melhorando tanto como intérprete e tinha aprendido tantas coisas novas! Então, em um tom triste, a japonesa me disse que a verdadeira razão dada pela jovem era a de que:

“Eu quero experimentar coisas novas. Trabalhos novos. É que ano que vem eu vou me casar. Então, depois do casamento, vai ficar difícil de eu trabalhar ou experimentar algo novo!”

A japonesa, então, perguntou:

“Ahn…então você está namorando alguém e os dois estão pensando em se casar?”

A resposta foi ainda mais surpreendente.

Não! Eu não tenho namorado. É que minha família vai acertar meu casamento ano que vem. Aí, depois disso, vai ficar difícil para eu trabalhar e ganhar novas experiências. Então, eu quero aproveitar agora para fazer outros tipos de trabalho.”

Diante de tal explicação, a japonesa não teve muita opção a não ser desejar tudo de bom à moça e encerrar a ligação.

tchau

Quando ela me contou esta estória, foi uma punhalada no meu peito, como mulher. Ela tem, no máximo, 23 anos. É formada, aprendeu japonês, conseguiu um emprego de intérprete em uma empresa japonesa…Mas, qual o valor de tudo isso? Qual o valor do esforço que os pais fizeram para mandá-la para uma faculdade e pagar um curso de idiomas sendo que eles mesmos vão jogar o diploma dela em uma gaveta e trocar por um dote? E, ela, claro, já conformada com a idéia, entrou numa espécie de contagem regressiva e até o dia fatídico, quer fazer tudo que lhe der à mente!

Ainda lembro do dia que nosso chefe veio de Delhi e todos jantamos juntos. Ela estava presente. Lembro que ela era a mais animada de todas e a que mais comeu e bebeu, incluindo álcool, coisa que, em casa, claro, jamais será aceita. Lembro da alegria dela, tentando provar de tudo que o garçom trazia e mais um pouco de tudo que havia no buffet. Até peixe cru a garota comeu! Lembro dos olhos dela, brilhando, quando viu aquele menu só de bebidas alcóolicas e a alegria de saber que tudo seria pago pela empresa e ela não teria que desembolsar nem um tostão! No final do jantar, já mais que alegre, ela pegou o trem com a outra colega e voltou para sua realidade.

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Ontem, quando cheguei do trabalho e contei o caso para o meu marido, ele também ficou revoltado e disse: – “Então, porque a família deixou ela estudar e trabalhar? Se era para terminar fazendo só chapati e reproduzindo uma penca de filhos, era melhor que eles nunca a tivessem deixado saborear o gosto da liberdade. Isto sim é crueldade!”

Crueldade. Ele realmente encontrou a palavra certa.

Um abraço e até a próxima!

por Banjara

 

 

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15 comentários em “Contos da Índia – A decisão infeliz

  1. Ola a Todas !!!

    Meu nome é Thais, tenho 28 anos e trabalho em uma empresa de Defensivos Agrícolas no Brasil, que é Indiana.
    Fui convidada para um short assignment por 10 meses em Mumbai e cá estou completando meu primeiro mês. *Ficarei aqui até março/2017

    Gostaria de saber se você conhece alguma comunidade de Brasileiros, ou onde posso encontrar restaurantes parecidos com os nosso por aqui?

    Gostaria de saber também se você tem uma listinha ai dos principais lugares para visitar em Mumbai e na India resumido rssrrs!

    Muito feliz de encontrar esse blog.

    Beijos

    Thais

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    1. Ola, Thais!!Seja bem-vinda a Mumbai! Bem, infelizmente, so conheco uma brasileira que mora na cidade, mas quase nao temos contato. Porem, em Pune (que fica a 3,4 horas de Mumbai), ha uma pequena comunidade de brasileiros, incluindo um restaurante brasileiro muito bom! Esta pequena comunidade tem uma pagina no Facebook (Brasileiros em Pune) e, la, voce vai poder entrar em contato com eles. Mas, como voce esta em um “short assignment”, eu sugiro que voce faca bastante amizade com os indianos e procure conhece-los mais, pois eh um grande aprendizado cultural, sempre! Em relacao aos lugares para visitar em Mumbai, ha varios listado no meu blog (basta jogar a palavra Mumbai no campo de pesquisa), alem dos videos do meu canal no Youtube (Banjara Soul). Mumbai eh cheia de atracoes para todos os gostos! Um abraco e tudo de bom!!!

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      1. olaaa !!! muito obrigada pela resposta ! você é muito atenciosa. Estou pensando em neste sábado turistar por POWAI. Vou almoçar no Suzette conforme sua orientação e visitar o Powai lake também. Neste mesmo dia vou aproveitar para conhecer o Global Vipassana Pagoda você chagou a ir? tem mais alguma dica para fazer em powai? posso tirar fotos la e te mandar para você atualizar suas dicas. muito obrigada desde ja Date: Sat, 9 Jul 2016 16:35:44 +0000 To: thais_fitipaldi1@hotmail.com

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      2. Ola, Thais!!Que legal!! Powai eh um local bem agradavel, principalmente o Hiranandani Gardens, onde voce vera muitos estrangeiros. Nao, nunca fui no Global Vipassana Pagoda, mas dizem ser bem bonito. Caso voce va e queira escrever algumas linhas a respeito, pode me mandar que eu publico no blog!! Um abraco e tudo de bom!

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  2. Assim como vc também me surpreendo com as chamadas “crueldades” que presenciei nos últimos 4 anos e 8 meses de sobrevivência na Índia. A última cortou meu coração e entendo o que vc senti vendo a liberdade dessa moça sendo roubada pelo o aspecto tradicionalista da cultura indiana. Eu moro em Pune e sempre pela manhã no horário que as “maids” empregadas chegam para trabalhar era agraciada com um “namastê” e um belo sorriso de uma jovem de no máximo 25 anos que trabalhava em um apto no prédio que eu moro atualmente. Pois bem, em uma dessas manhãs eu só escutei a voz dela mas o rosto estava coberto por uma parte do saree. Ela insistiu, repetiu umas três vezes…tipo: namastê Madame, sou seu. Eu pedi que ela se aproximasse e consegui identificá-la pelos olhos. Perguntei porque estava cobrindo o rosto, foi então que ela tirou o pano e eu pude ver a “a crueldade” ali no rosto daquela jovem. Estava com o rosto queimado e desfigurado, porque o marido havia jogado ácido nela e pasmem..ela mesmo assim tentou com muita dificuldade sorrir para mim. Ele fez isto porque ela se negou a dar o dinheiro que ela havia recebido do trabalho. Sinceramente. ..para nós ocidentais é surreal aceitar, ver e entender casos como este esil tantos outros. Ainda estou aqui a procura do país espiritualidade…mas ainda não consegui enxergá-lo com meus olhos. Parabéns pelo seu blog e boa sorte. Qdo eu for a Mombay podemos trocar algumas idéias a respeito, vai ser um prazer. Abçs

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    1. Ola, Silvia!! Muitissimo obrigada pela mensagem. E, que coincidencia! Eu acabei de voltar de Pune!! Fiquei la uma semana a trabalho. Em breve, devo voltar novamente. Obrigada por compartilhar esta estoria taaaao triste e revoltante. Juro que nao entendo o que leva um homem a fazer isso, mas tenho certeza que uma boa base educacional e a convivencia normal com o sexo oposto nas escolas e vilarejos, ja ajudaria os homens a enxergar as mulheres como seres humanos e nao como escravas ou seres inferiores. Lamento muito o ocorrido. O bom de tudo isso, eh que ha muitos indianos contra estas monstruosidades e fundando ate Ongs, o que mostra que a India esta evoluindo e mudando. Sera um prazer poder encontra-la em Mumbai ou Pune. Um abraco e que Deus abencoe sua estadia na India.

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  3. Oi, Banjara, vou escrever sobre o quê aprendi nas minhas pesquisas sobre a Índia pelos blogs da vida… Os pais investiram em estudos para ela para ficar mais fácil de ela conseguir um bom casamento. Com um nível educacional universitário, pós-graduado, doutorado e etc., fica mais fácil, vamos dizer, conquistar um marido do mesmo nível, também graduado, pós-graduado, doutorado e etc. e que garanta uma vida confortável e tranquila para a moça, sem ela precisar trabalhar. Assim, mata-se dois coelhos com uma cajadada só: uma vida tranquila e confortável para moça e, consequentemente, ela retribuirá essa boa vida…nossa!…com vaaaaaaaaaaaaaaarios filhos. Os sogros são apenas um detalhe… de repente o moço é órfão de mãe, o quê já um lucro, e põe lucro nisso em qualquer sociedade do mundo….hahahahahahhahaha….Simples assim… Torçamos para que sua amiga esteja dentro dessa análise despretensiosa que fiz…rsrsrsrrsrsrsrsrsrs bjs!

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  4. Ai gente, tadinha da moça… se ser dona de casa fosse o sonho dela e/ou estivesse para se casar com alguém que realmente a ama seria uma coisa, mas… percebe-se que não é o caso dela. Pelo menos ela pôde fazer coisas impensáveis para uma moça indiana e que essas boas lembranças da juventude pelo menos lhe sirvam de alento pelos próximos anos… 😦

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  5. Nossa, inacreditável! A moça não pode nem ao menos idealizar uma perspectiva de futuro já que após o casamento vai viver cuidando da casa, do marido, filhos e perdendo um pouco da sua essência. 😦 Deve ser difícil abrir mão do lado profissional, sonhos pra viver conforme essa tradição.

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  6. Eh lamentavel o sistema de castas e cultura retrogrado existente na India. Estive em Cochin e Mumbai num curto periodo de tempo mas senti como eh dificil sobreviver neste pais com imensa populacao de baixo nivel social, economico e de saude. Sinto pelas mulheres que sao ainda mais sacrificadas em nome de tradicoes atrasadas e castrantes.

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