Casamento com estrangeiro- E quando a família dele(a) é contra? – Parte final

Olá, pessoal!

Cenas dos capítulos anteriores:

Eu e meu marido finalmente nos casamos no civil e religioso. Porém, na cerimônia, só a mãe dele e o tio estiveram presentes.

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A vida de casal começa em Uttar Pradesh. Eu pedia a Deus para não ter que ir na casa dos sogros, já que eu não estava com a mínima vontade de encarar aquele climao ou, de cumprimentar meu sogro e ser deixada no vácuo, sempre. Graças a Deus, fomos lá pouquíssimas vezes. E em todas elas, claro, meu sogro me deu AQUELE gelo. Dois meses depois, nossa vida tomou novo rumo, porque eu recebi um telefonema de uma empresa indiana dizendo que queria me contratar como intérprete. Eu ja havia feito a entrevista quando ainda morava no Japao, mas estava esperando pela resposta.

E, com isso, viemos parar em Mumbai. Lembro que um dia antes de nos mudarmos, fomos até a casa dos pais nos despedir deles é, mais uma vez, toquei os pés do sogro e…fiquei no vácuo. O mesmo não aconteceu com minha prima, que fez o mesmo gesto, mas foi abençoada, como manda o figurino. Outra grande afronta para mim foi minha cunhada ter pego o álbum de casamento para mostrar pra gente. Minha cunhada é a esposa do irmão do meu marido. Ou seja: quando eles se casaram, teve uma festança. E, ali, estava eu, engolindo a seco aquele álbum de casamento. Meu alívio é que a prima também não teve festa de casamento, já que ela é seu noivo eram fugitivos e excomungados pela família dela.

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Como dizem por aí, o tempo é o senhor da razão. Nos mudamos para Mumbai e começamos uma nova vida. Uttar Pradesh e suas tradições milenares ficaram no passado. Pelo menos, no meu. Naquele final de ano, meu esposo me avisou que os pais dele iam passar umas semanas aqui em Mumbai. Já fiquei meio tensa, já que isso significava que o sogro também viria. Porém, qual não foi minha surpresa quando semanas antes de eles virem, meu sogro liga pro meu marido, eu atendo (meu marido estava no banho) e, quando vi que era ele, apesar da vontade de desligar, eu respirei fundo e disse: – “Papa, Namaste.”Aí, ele respondeu em inglês: – “I am fine, Juli. How are you?”

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Foi a primeira vez que ele dirigiu a palavra a mim e, foi a primeira vez que eu soube que ele sabia inglês! Que progresso, não??

Alguns dias depois, eles chegaram em Mumbai. Era a primeira vez que eles visitavam a cidade e a primeira vez que viam o mar na vida deles. Meu esposo não pode ir buscá-los na estação. Portanto, eu tive que ir. Bastante apreensiva, é claro, já que tínhamos todo aquele histórico tenso. Mas, na estação, eles me receberam bem e de lá, pegamos um táxi. Na mentalidade e na cultura indiana, não tem essa de ” casa da nora”. A casa é do filho deles é, como o filho é deles, a casa também é deles. Ou seja: eles não são visitas, como no Brasil. São os donos da casa.

Aos poucos, meu sogro começava a dirigir a palavra a mim e, mesmo com tudo que ele havia feito, eu continuava tratando ele com muito respeito e sempre chamando de “papa”, como deve ser pelas bandas de ca. Ele parecia mudado. O véu que cobre a cabeça, o qual todo mundo fazia questão que eu usasse lá na casa dele, agora já parecia não ser tão importante. Ele mesmo disse: – “Nao precisa usar isso. Não é usando isso que você vai me respeitar mais ou menos. Eu sei que você me respeita”

Depois, chegou a vez da famigerada calça jeans. Lá em Uttar Pradesh, mulher casada não deve usar calça jeans e minha sogra simplesmente detesta este item que eu adoro. Quando não achava uma calça para usar com a bata indiana, meu sogro vira e do nada diz:- ” Porque não usa calça jeans? Túnica indiana com calça jeans fica muito bom e decente”.

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Choque geral. Minha sogra estava radiante. Meu esposo estava felicíssimo e, confesso que eu estava bem mais aliviada. Todos os dias de manhã, quando eu saía para o trabalho, meu sogro, minha sogra e o bebê (meu sobrinho) iam comigo até a esquina e ficavam acenando de lá até eu virar a rua. Todo dia eles faziam isso. Eu achava muito bonitinho aquilo. Como meu sogro estava sendo um fofo, todo dia de manhã, assim que o jornal chegava, eu ia lá no quarto e colocava na cabeceira dele junto com os óculos dele. Ele ficava todo feliz e dizia: – “Thank you, beti. “(Obrigada, filha).

E, assim, mais de duas semanas se passaram. Até que meu sogro vira dentro do carro e faz uma declaração bombástica :

“Acho que deveríamos fazer uma festa de casamento pra vocês mês que vem! O que vocês acham?”

 

1c6766eae4a11c5a39038031076a41abEu fiquei meio sem graça de dizer: – “Agora não precisa mais, porque já perdeu a graça. “. Então, deixei meu marido decidir. Mas, ele também compartilha do mesmo pensamento que eu e, mesmo o pai insistindo mais tarde, ele recusou veemente, dizendo que: – “Depois de tudo que seus irmãos fizeram, tentando impedir o casamento, você acha que eu vou querer dar festa para encher a barriga deles? Nem morto!”

E assim, não rolou festa nenhuma. Porém, a vinda dos meus sogros para Mumbai foi muito significativa para mim, já que no final, meu sogro pediu perdão para o meu esposo (para mim, ele jamais pediria pois o orgulho de macho indiano não permite). Ele pediu perdão ao meu marido por ter sido contra nosso casamento e disse que hoje ele reconhecia que o filho dele tinha feito uma boa escolha, já que eu era uma moça simples e decente (eles amam esta palavra!). E que também não conseguia imaginar nenhuma outra pessoa para o filho dele que não fosse eu.

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Quando meu marido me contou isso, confesso que quase chorei. Não que eu precise da admiração ou aceitação deles para ser feliz em meu casamento. Mas, era uma mágoa indigesta entalada na minha garganta desde 2012.

Hoje, graças a Deus, a paz reina e, mesmo outros membros da família tentando inventar estória (já ligaram pra minha sogra até dizendo que a gente tinha se divorciado!), hoje eles já não caem nestas artimanhas tão facilmente. Outra investida foi de uma tia venenosa: ela ligou bem quando meus sogros estavam aqui em casa e perguntou pra minha sogra:- “E aí, fulana? O que você está fazendo? ” Quando minha sogra disse que estava preparando a janta, a cascavel soltou a pérola:
” Tá vendo? Por isso que eles te chamaram pra ir ai. Pra trabalhar pra eles!!”

Minha sogra, na mesma hora ficou muuuito brava e disse: – “Eu faço por prazer. Eles são meus filhos. Que mãe não cozinha pro seus filhos se os dois trabalham fora o dia todo??” Aí, a bruxa ficou sem resposta.

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E minha sogra sabe muito bem que eu não queria que ela fizesse nada aqui em casa. Por mim, a gente comia fora toda noite, mas tudo eles acham que é desperdício de dinheiro. E, ela realmente estava feliz em cozinhar pra gente. Quando eu chegava em casa do trabalho e ia direto pra cozinha ajuda-lá, ela dizia:

“Não, minha filha. Vai tomar banho que você deve estar cansada. Trabalhou o dia todo. “

Claro que eu jamais gostaria de morar com eles, mas hoje, pelo menos, as diferenças ficaram para trás e meu sogro enche a boca para falar sobre o Brasil. E, acreditem! Ele sabe mais de geografia brasileira do que eu! Acreditam que ele sabia até do Rio Negro? Além disso, ele e meu cunhado enchem a boca (sim…indianos adoram se gabar!) para dizer que a “bahu” deles sabe vários idiomas, que já trabalhou no Japão, que isso é aquilo. Até meu sobrinho, de 4 aninhos, vive dizendo na escola que a tia dele vai trazer um brinquedo pra ele do Brasil, que a tia dele trouxe presente do Brasil…sendo que ele pensa que o Brasil fica em Mumbai, o lugar mais longe que ele já esteve. Fofo, né ?

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Conclusão

O intuito deste post não foi desestimular as pessoas que estão prestes a se casar com um indiano, árabe, paquistanês, etc. Mas sim, mostrar a vocês, meninas sonhadoras, Jades e Mayas, que tudo é lindo só no filme do Alladin. A whole new world realmente está esperando por você, apesar de que nem sempre o novo significa bom. Mas, significa desafio, crescimento, paciência, perseverança e muitas outras virtudes que você vai adquirir. 

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A decisão, como eu sempre digo, é sua, mas para virar esposa de indianos e das outras nacionalidades citadas, você vai ter que ter muito equilibiro e maturidade emocional. Caso contrário, você vai pirar e acabar escrevendo blogs cheios de coisas ruins sobre a Índia, o que vai apenas servir para mostrar ao mundo o quão frustrada você é.

E o que fazer para não pirar com a rejeição?

Saber que tudo passa e que o tempo é senhor da razão. Saber o seu valor como pessoa e mulher, ainda que queiram provar o contrário. Ter total cumplicidade e sinceridade com o teu parceiro. Saber que indianos ( e as demais nacionalidades citadas) jamais falam mal dos pais, mesmo que estes estejam errados. E, ainda que falem, isto não dá o direito de você meter o pau nos pais dele. Portanto, muuuuita calma nesta hora. Outra dica legal é não construir seu mundo em volta do seu marido e da família dele. Tenha amigos. Faça amigos. Saia, vá tomar um chai na esquina, vai ver as modas, vai ler, vai estudar inglês e hindi…E se puder: arranje um trabalho. Além de ajudar nas despesas, você terá sua independência e, caso algo aconteça, não precisará depender do dinheiro dele. O trabalho também fará você se sentir útil, capaz e valorizada, além de ser um bom local para fazer amizades.E, se ainda assim não aguentar e estiver no limite (pois cada um sabe onde aperta o calo), abra o jogo com seu príncipe indiano e diga que quer voltar ao Brasil e levar ele junto. Já vi casos assim acontecerem e, quem optou por isso, parece ter feito uma boa escolha para si mesma. E no caso dela, o parceiro também entendeu que elas não tinham estrutura física e mental para aguentar isso aqui. Uma pessoa que conheço, e que optou por se mudar para o Brasil levando o indiano junto, me disse que ficava revoltada só de ver aquelas mulheres usando niqab. (a vestimenta preta das muçulmana que deixa só os olhos de fora). Já eu, nunca vi por esse lado. Sempre vi com outro olhos. Aqui elas têm independência total. Podem trabalhar, estudar, dirigir…fazer o que quiserem. A vestimenta é só o retrato da fé delas. Enfim…

Assim disse a diva...
Assim disse a diva…

Bom, só para terminar, a melhor parte foi ano passado, quando meu esposo esteve no Brasil pela 1a vez. Minha mãe organizou uma bela festa de casamento. Por ela, teria cerimônia de casamento, com padre, pastor, etc. Mas, eu disse que não precisava ter a cerimônia no religioso, porque agora já não tinha mais graça. Mas, que ela podia fazer sim, uma festa bem linda. E assim, minha mãe realizou o sonho dela nos oferecendo uma festa linda, onde pudemos reencontrar velhos e queridos amigos, tios, primos….enfim…uma noite inesquecível!Queria que aquela noite tivesse mais umas  12 horas, pelo menos.

Caso você tenha uma estória como esta (com ou sem final feliz), e gostaria de te-la publicada, escreva pra gente.(juinjapansince2007@gmail.com) Não se preocupe, pois seu nome será mantido em sigilo.

O intuito deste post foi apenas alertar algumas meninas sobre o que pode estar aguardando por elas quando decidem entrar para uma família que vem de países onde as tradições e os valores são muito mais fortes que a vida, muitas vezes. Claro que cada um terá uma estória diferente e nem todos os indianos são iguais. Porém, de uma forma ou de outra, e sempre bom conhecer o terreno onde está pisando.

Um abraço e tudo de bom!

por Banjara Soul

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19 comentários sobre “Casamento com estrangeiro- E quando a família dele(a) é contra? – Parte final

  1. Só hoje parei pra ler sua história de casamento companho mas as histórias repente, e de fato muito exclarecedora tem um relacionamento com um inda já pra 1 anos , e tenho uma amiga casada com um indiano que me dá altas dicas, ju Parabéns pelo seu blog ele bem divertido exclarecedor, continue fazendo isso que é lindo e ajuda muito quem quer ser ajudado Parabéns sucesso. Bjs

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  2. Só hoje parei pra ler sua história de casamento companho mas as histórias repente, e de fato muito exclarecedora tem um relacionamento com um inda já pra 1 anos , e tenho uma amiga casada com um indiano que me dá altas dicas, ju Parabéns pelo seu blog ele bem divertido exclarecedor, continue fazendo isso que é lindo e ajuda muito quem quer ser ajudado Parabéns sucesso. Bjs

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  3. Adorei esta historia de vida….eu estou conhecendo um indiano…nos falamos todos os dias …eu acho que podera dar uma linda historia de amor!!!aguardem os acontecimentos….ele diz estar apaixonado por mim…e quer vir p/ o brasil casar se comigo..

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  4. Ju, me emocionei com a sua história. Fico muito feliz por saber que você foi aceita pelo seu sogro. Pelo relato, parece que ele realmente reconheceu o seu valor como mulher e como esposa do filho dele. Desejo que vocês sejam muito mais felizes e abençoados a cada dia.
    Bjs, querida.

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  5. O meu casamento foi quase que nem o seu. A família do meu esposo também não aceitou. Ninguém foi no nosso casamento no civil, só um tio que assinou como testemunha, não tivemos festa. Foi o dia mais triste e mais feliz da minha vida, sei que você entende. O meu esposo enfrentou toda a família e nós nos casamos. Depois de acontecimentos bombásticos na familia, minha sogra me aceitou e me valoriza mais do que as noras indianas. Mesmo assim ficou a mágoa por todo sofrimento que nos fizeram passar. O tempo é mesmo o dono da razão e cicatriza todas as feridas, assim eu espero.

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    1. Oi, Natalia! Olha, eu nunca estive em Mumbra, mas sei que fica em Thane. Thane eh um municipio que tem crescido assustadoramente nos ultimos anos e tem sido o local predileto para o pessoal que nao pode comprar um apartamento em Mumbai, se bem que em Thane tambem eh carissimo. Mas, Mumbra mesmo, eu nunca fui. Beijos

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  6. Que linda a sua história! Que bom que terminou tudo bem. Desejo muita felicidade pra vc e seu marido! Amoooooooo muito os posts do seu blog, vc passa uma sinceridade e doçura tão grande. Parabéns, linda! ☺

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