Os hindus – Conhecendo e entendendo melhor

gangasnan
Muitas vezes, na internet, me deparo com blogs e comentários de pessoas (na maioria mulheres), criticando ou julgando aquilo que para elas seria frieza ou falta de compaixão dos indianos. Porém, a maioria não sabe e não tem nem idéia que por trás de tudo isto existe um fator crucial para entender o comportamento dos indianos: o Dharma.

Geralmente, quando julgamos alguém ou algo, estamos nos baseando em nossas próprias crenças. E, em nosso caso, como brasileiros, crenças judaico-cristãs. Nossa formação cultural é judaico-cristã e por mais que não frequentemos nenhuma entidade religiosa, pela maneira a qual julgamos os atos e acontecimentos ao nosso redor, é nítida a influência desta bagagem cultural.

Com este post, não quero defender (nem ofender)  ninguém e nem dizer que um está certo e o outro errado. Porém, apenas mostrar um outro lado da moeda e ajudar nossos leitores e pessoas que pretendem morar na Índia, a entender a maneira e o porquê de como funcionam algums coisas por aqui.

Todos sabem que tem apenas 2 anos que moro aqui, mas meu interesse pela sociedade e cultura do país onde vivo é imensa e, volta e meia, estou lendo e estudando sobre o assunto. E, claro, postando aqui, porque conhecimento é para ser difundido e não guardado a sete chaves.

Pois bem. Vamos ao assunto.

O Dharma
dharma
Se você perguntar a algum indiano o que é dharma, talvez ele não saiba te responder. Dharma não é um assunto amplamente tratado ou discutido em rodas de amigos ou assuntos de família. Mas, é um tema importantíssimo para compreender a sociedade e mentalidade indiana, sobretudo os hindus, já que este é um termo que vem do hinduísmo e não é encontrado (pelo menos, até onde sei) nem religiões monoteístas, apesar de algumas terem idéias semelhantes.
Há quatro importantes conceitos que vêm do Sânscrito e os quais precisamos entender para viver melhor na Índia. São eles: Kama, artha, dharma e moksha.
Kama

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Estátuas eróticas de Khajuraho, um famoso ponto turístico.

Kama é o prazer. São os desejos da mente e do corpo e devem ser saciados. Para quem não conhece, este o deus hindu Kama (Kamadeva), de onde tiraram a idéia de Cupido. Kama representa os prazeres desta vida. Daí, o termo Kama sutra.

Kamadeva - O deus que deu origem ao Cupido
Kamadeva – O deus que deu origem ao Cupido

This picture postcard was distributed by the private Indian Health Organisation (IHO) at a four-day ..
Artha
Artha é o que mais podemos perceber na sociedade indiana: busca pelo poder, riqueza e estabilidade. E, vale ressaltar que não é errado procurar por isso segundo os ensinamentos da religião.
Dharma
O Dharma, o tema do nosso post, seriam as obrigações que devemos cumprir como indivíduos perante a sociedade, como o casamento e o trabalho, por exemplo.
Moksha
Moksha é o último dos conceitos e apesar da dificuldade em achar um termo equivalente, seria o mesmo que o nirvana, ou encontrar a salvação. Seria o despreendimento de todo o material e o encontrar-se com Deus. Não tem nenhuma relação com abandonar todos os bens materiais e ir morar em uma caverna no Himalaya.

Tendo apresentado os 4 conceitos, voltemos ao Dharma.
O Dharma em si, é um termo difícil de ser traduzido em outro idioma, seja o inglês ou português, mas se refere às obrigações sociais a qual um indivíduo deve se submeter durante sua vida. Alguns exemplos de Dharma:
1. Quando um pai de família trabalha 12 horas por dia para prover o sustento do lar.

2. Quando os pais selecionam centenas de currículos de pretendentes para escolher um bom partido para sua filha.

3. Quando a nora cuida dos pais do marido, etc.

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Enfim, Dharma são as ações e o comportamento que se espera de um indivíduo durante o decorrer de sua vida. Quem espera? A sociedade, como um todo.
Aí é que entra a questão. Para nós, ocidentais, hoje é extremanente difícil digerir estes conceitos, pois vivemos de acordo com o Carpe Diem. Também somos individualistas e prezamos isso como liberdade e felicidade. Porém, não é assim que a banda toca aqui na Ásia e muito menos, na Índia.
Por isso, há tantos comportamento indianos que parecem estranhos ou incompreensíveis aos nossos olhos.

Meu esposo sempre me diz: – “Juliana, se alguma indiana te pedir conselhos, não dê. Não se meta!”  A primeira vez que ele me falou isso, foi há mais de 1 ano. Hoje, eu finalmente entendi o porquê. Na época, uma amiga indiana estava cheia de problemas e sempre vinha desabafar comigo. Ela estava enfrentando a perseguição da própria família e mais uma série de outros pepinos. Quando comentei com meu esposo sobre o assunto, suas palavras foram: – “Você fica de fora! Porque se acontecer alguma coisa ou ela se matar, depois vão dizer que foi por causa do conselho que você deu!”
Achei super dramático o comentário, mas hoje, 1 ano depois, vejo que ele tinha razão. Não, não. Ela está viva e continuamos amigas, mas, sem aconselhamentos. Virei ouvinte, apenas. Algo muito difícil para uma mulher, confesso.

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O Dharma é o fator determinante entre o certo e o errado

Vou ilustrar com alguns exemplos:

Varun mora em um tradicional vilarejo e se casou. Porém, ele e sua esposa decidem não morar com os pais dele e alugar uma casa no mesmo bairro. Super comum, certo? Errado. Certo para nós e, para mim, que cresci minha mãe ouvindo: Quem casa, quer casa. Mas porque é errado para Varun? Porque isto trará vergonha a sua família e as pessoas vão pensar que há algo de errado na casa dele ou com os pais deles, já que não querem morar juntos, o que seria, o comum, especialmente em áreas rurais.

Outro exemplo:

O tio de Prakash chega até ele, dizendo que está numa pior e com problemas judiciais. Ele precisa que Prakash assine um documento para ele, mas para alguns, isto pode soar como assinatura falsificada. Aqui, claro, o Dharma está sub-entendido, mas Prakash assina porque os fins justificam os meios. Ou seja: Ajudar alguém do seu círculo familiar faz parte do Dharma, ainda que isto implique em um ato considerado ilegal. Claro que isso não vale para todos, mas o que quero dizer, é que o Dharma é o fator que separa o certo do errado.
Um exemplo clássico aparece no Bhagavad Gita:

Arjuna vem de uma casta de guerreiros. No entanto, enquanto se prepara para a batalha, ele luta interiormente, pois não quer pelejar com aqueles que são seus familiares próximos e acabar matando-os. Porém, Krishna o exorta a lutar, não simplesmente porque está é a coisa certa a ser feita, mas porque ele vem de uma casta de guerreiros. Lutar, guerrear é o seu dever. E não pode ser abandonado.

Outra coisa que vale ressaltar e sobre a qual falaremos mais em breve aqui no blog é não só a noção de certo e errado, mas de pecado ou não-pecado dentro da sociedade hindu. (Em breve! Não percam!)

Portanto, como eu sempre digo, antes de julgar, vamos conhecer e desvendar os fatos!

Um abraço e até a próxima!
by Banjara Soul

Créditos:
Learning India
Wikipedia/Moksha
Britannica/Moksha

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